Conheci uma menina.
Mais nova, 19, 20 anos. Iniciava o curso de Geografia na Universidade Federal
de Pernambuco. Conheci em um pega bêbado
classemedializado pela proximidade com a mesma universidade. No bar apenas nos
cumprimentamos. Recife é a maior menor cidade em linha reta da América Latina,
todo mundo tem um amigo em comum. Foi o que aconteceu naquele dia do bar. Todas
as informações que tenho sobre ela foram adquiridas após vê-la jogar dominó na
casa das vizinhas semanas depois – como eu disse é a maior menor cidade. A
habilidade daquela menina era impressionante. Todas as pedras que vinham na
sequência tinham sido anunciadas por ela, que vendo minha admiração, usava-me
como confidente de jogada. Ela me mostrava as pedras dela e dizia, vou jogar
esse terna aqui, vai vir uma quina e vou fechar o jogo, por que só me sobrará o
pio e branco. Confesso que o pragmatismo também me apaixona.
Minha pretensão era
escrever uma crônica extemporânea. Sei do paradoxo e da exagerada ambição de
não ser um escritor datado – a real é que nem sei se algum bondoso espírito lê
em voz baixa algo que rabisco no papel e finalizo no Word. Ser esquecido não é
bom, depois de lido, é pior. Por isso o anseio girava entorno de discorrer
sobre uma passagem do ano que serviria para todos os anos: fevereiro. Todavia,
as lembranças do Facebook me alertam que já vivíamos o carnaval em 2018. O que
me impossibilita de deixar o texto atemporal, afinal, ainda estou usando o
Facebook – quase todos estão lá no Instagram. Qual mesmo a importância das mudanças
das redes sociais ante o começo assustador de 2019? Para mim, parecia que 2018
era continuação 2016. Que ano demorado. E 2019? Ainda estamos em fevereiro.
Jogo dominó sempre
de forma bem distraída. Faço muita algazarra, brinco, faço-me de entendido. De
longe, devo parecer um bom jogador. Muitas vezes estou fazendo análises sociais
do meu comportamento no mundo diante das opções “passo uma carroça de duque ou
duque e terno?” Chego à conclusão que quando não tenho posições seguras na
vida, a opção melhor é não tomar partido – porém, claro, o cafezinho. No dominó
escolho passar a carroça de duque. A outra opção talvez teria ajudado meu parceiro,
mas, de certeza tenha que naquele instante, de não saber por onde ir, não
atrapalhei.
Uma crônica de
início de ano com mensagens de esperança, confiança, segurança, não me encanta.
Muito mais que isso, não me é possível. Eis bem a verdade: autoajuda uma hora
dessa, não, por favor! Nem me ajudo. O receio que me toma sempre ao escrever é não
estar contando uma história, mas sim falando de mim mesmo. Desabafo não é
literatura – vi isso em algum livro que li recentemente. 2018 se despediu como aquele primo chato, que
passou, apenas veio e se foi, porém, das poucas lembranças daquela passagem
temos apenas a conta do telefone, que extrapolou a terceira casa decimal por
aquele parente, que ligou para todo mundo para descrever o presente. Agora,
mais do que datei, mostrei que passei por um período do mundo, no qual a
internet não era regra, tão pouco imaginávamos influenciar uma eleição
presidencial. Telefonar já foi o meio de comunicação mais ousado – usei ousado
e não usado porque lá em casa, usávamos raramente, recebíamos mais do que
ligávamos.
Outro dia jogava
dominó com minha mãe. Ela, eu, a televisão ligada e essas notícias de fevereiro
no Brasil.
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