quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Carta


Recife, dezembro de 2018.
Oi,Carlos,

Vai fazer três meses desde do último encontro. A gente ensaiou tanto o termino para no final acabar desse jeito. Que que história louca, não é? Se alguém nos contasse, não acreditaríamos – sabendo disso, não tenho conversado com ninguém. Três meses. O tempo voa. Tenho sobrevivido, Carlos. No primeiro mês foi bem difícil. Alguns dias eu dormi com sua camisa marrom que ficou no meu guarda-roupa. Pensei em devolver, entregar a sua mãe, a propósito, ela parou de mandar mensagens, de me mandar aparecer. Ainda bem. Meus amigos te encontraram uma noite dessas, falaram que você estava acompanhado. A gente sabe, mas a gente sofre, não é Carlos? No início do segundo mês eu comecei a me sentir melhor. Resolvi aceitar os convites. Calhou de ser aniversário do David, lembra dele? Foi numa sexta à noite, como uma jovem que pode conhecer alguém, saí despretensiosa. Fui bem elogiada pela minha roupa. Reparei que foi você quem escolheu a blusa, no dia nem tinha achado tão legal, comprei porquê você escolheu. Sobrevivi à noite. Esses dias conheci um carinha, Carlos. Na verdade, a gente já se conhecia de muito tempo, acho que eu devia ter uns 13 e ele 15 anos. Última vez que nos vimos, acredito que foi em 2010, 2011. Conversamos sobre. Ele me chamou para sair. Foi repentino. Aceitei. Mas eu não queria encontro, queria revê-lo e me distrair. Cheguei até a conversar com minha mãe, você sabe como ela é, disse preu deixar de ser besta e ficar com o menino, afinal, estou solteira. Fui me distrair, determinada a só passear a dançar um pouco. Antes de terminarmos a primeira música eu senti vontade. O intervalo entre o desejo e o beijo foi de milésimos de segundos. Deveria pensar menos, foi bom pensar e fazer, simultaneamente. Abraço, Carlos.

Com o sentimento de sempre e para sempre,
Iolanda S.


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Em 2013 Iolanda S. passou por aqui. Há 5 anos ela, mesmo de não mais tenra idade, resolveu iniciar um diário, que, claro, não deu continuidade. Para conhecer um pouco mais dessa menina clique aqui


quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Qual foi a última vez que conversastes?


Dois meses sem beber com os amigos é muito
Não deixes o cigarro apagar
Corres, dezembro aponta a nossa vista
Não deixes a Internet ser a ponta de sua vida
Qual foi o último brinde?
Qual foi o último sonho compartilhado?
Não deixes tudo guardado
Tão pouco jogues ao vento disperso

A tenra idade se despede e os inimigos se multiplicam
Procuro o sonho, algum ainda há de ser chama
A chuva lá fora não pode ter forças para apagar todos
Tudo quilo que construímos, tu e eu sabemos

Tenho visto muita gente perdida
Não deixes a ansiedade ser lei
Corres, você pode, eu sei
O dinheiro grita regra, sofrida
Qual a última vez que ficamos bêbados?
Qual o último filme hollywoodiano que assistimos?
Não quero deixar tudo em versos

Escondo as insônias dos últimos dias
Quando não tomo banho
Ainda lavo os pés para dormir
Esses rituais não mais me alimentam a alma
Meu ônibus está sem motorista
Não assumimos o volante
Larguei quando era minha vez
Tantos erros
E nada de dormir
Nada de ler, produzir
Viver
E ver os amigos
(Qual foi a última vez que conversamos?)


segunda-feira, 5 de novembro de 2018


Perguntaram-me se ainda nos encontrávamos
Respondi que não
Era mentira
Há noites em que ainda nos encontramos
Em meus sonhos.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O que é o Fascismo?

Fascismo
No dicionário de Bobbio
Está na sequência de
Fanatismo.
Na época dos anos de graduação
Naquele curso em História
Debatíamos 
Parágrafo 
Por 
Parágrafo
Os problemas de definição
Os problemas abertos.
A abordagem
Era
Ora
Singularizante
Ora
Generalizante.
Análises 
Por ora
Esquecidas
Sucumbidas 
Tal qual aquele museu
Qual era mesmo o seu nome?
Não lembramos.
Fazem-nos esquecer.
Não lemos.
Não quero que se iludam
Repito
Não lemos
7 páginas
De Norberto Bobbio
Ou 
Outro
Cientista político
Ou
Um
Sociólogo.
De preferência que discorde
Para contrapor. 
Mas não lemos
E não sabemos
O que é o
Fascismo.


terça-feira, 19 de junho de 2018

A melhor parte de mim são os poemas



Você agora está lendo um poema
Algumas palavras em versos
Que devem te atingir
Fazer-te recordar alguma história
De amor, de raiva, saudade
Normalmente é assim que acontece
A história pode ser de perdão
De amor e solidão
Como da primeira vez que te perdi
Fui eu que sai e fechei a porta
Olha que bosta
De toda forma
Você está bem?
Sim, você está bem?
Agora, neste instante que ler
Poesia não inventa milagres
Você precisa se permitir
Estar sereno, sentir
Há casos do interlocutor dos versos entender
Sofrimento
Onde estava escrito
Sentimentos
Como naquele show de Alceu
Que eu abraçava e cheirava outra menina
E você laçada em outros braços
Misturavam-se
Na mesma plateia
Sentimentos e sofrimentos
Há também
Nessa coisa de poesia
Uma distancia
Sutil
Capilar
Entre eu
E o eu lírico
Essa distância abre um mar de curiosidade
O que tem passado na vida dele,
Para escrever tais versos?
Cada palavra possui significados que podem ser decifrados
Somos interpretáveis
Poesia é lágrima
É também orgulho de cada história
Cada memória
Real ou inventada
É o espaço que não se desatina
Não sai por aí trocando nomes
Esse laranja é forte, amor
Silêncio
O poema agora está acabando
As últimas palavras são fortes
E deveriam te impactar
Mas você apenas suspira
E se distancia de mim.


sexta-feira, 25 de maio de 2018

Nunca esquecer


Lembrar
Para
Escrever
Para
Esquecer

Quanto tempo para esquecer?

Um sonho
Que faz lembrar
Um sonho à noite
Enquanto durmo
Faz voltar
O sonho à tarde
Sonho tarde?

Por quanto tempo lembrar?

As pedaladas pela Ilha
Vistas e pontes
De Ferro ou de Nassau
As manhas
Façanhas silenciosas
As manhãs

Lembrar
Para
Escrever
Para
(Nunca)
Esquecer

terça-feira, 1 de maio de 2018

Só acompanhado




Descobri algo novo. A rede é meu habitat natural. Não sei explicar, é amor. Nela não estou deitado nem sentado, estou na rede. O sono não aparece como quando tento ler na cama, nem aquele soninho bocejante da mesa de trabalho.

O Nelson me acompanhou um tempo. Vi até uma peça dele esses dias - os críticos disseram que a montagem foi infeliz, tenho pouco para falar, só que assisti. Estava lendo esses dias “A pátria em chuteiras”. Tem Copa do Mundo na Rússia este ano. Estamos em 2018. Não sou o fã de futebol, meu time tem talento pra perder. Mas esse ano foi diferente, ele foi campeão do Pernambucano, amém.

Estava com Nelson pela narrativa. Quieto na rede, fico encantado com sua forma de contar os episódios. Um exemplo foi o salto de Didi no jogo do Brasil 3 x 1 Uruguai, em algum campeonato de 59. Um salto que Nelson transformou em um quadro, uma pintura que Miguel Ângelo assinaria.

Com Nelson um salto passa a ser um voo. “O jogador ficou leve, alado, incorpóreo”. O mais impressionante é que a descrição era de uma briga, e o salto, uma voadora! Sim, uma voadora! O Uruguai ganhava de 1 x 0 e o jogo estava violento, quando, de repente, estourou a briga que envolveu os 22 jogadores, os reservas, a comissão técnica e os jornalistas dos dois países – perdão pelo exagero.

“O momento mais artístico da pancadaria foi a monumental intervenção de Didi. Tomou distância e correu. Havia um bolo de uruguaios. E todo o estádio parou no espanto do salto, tão plástico, elástico, acrobático. Com os dois pés, fendeu e debandou o grupo inimigo. A plateia argentina quase pediu bis”, contou o Nelson na Manchete Esportiva, em abril daquele ano.

Nem falei das aulas de história que ele me dá. No Jornal dos Sports, dois anos à frente, ele comentava que era tricolor e estava explicando que não era de hoje, ou melhor, de 61. Era tricolor antes do próprio Fluminense. Sem perdão do exagero, era tricolor antes de Cristo. E argumentava que o ser humano precisa colocar tudo em “termos de memória”. E dizia “sou dos que creem que o homem é, sobretudo, passado. O presente pouco importa e o futuro menos ainda. As coisas só tomam o seu exato valor quando evocadas”. É, a memória que potencializa todas as nossas experiências, e isso eu concordo, Nelson.

Cá estou eu evocando uma paixão recente. Criando memória. É amor recente. Desses que a gente vai se envolvendo aos poucos e quando se percebe, já está meio perdido. Não vê a hora de chegar do trabalho, tomar banho, jantar e ir para a rede.

Às vezes estou distraído olhando o tempo, chove não chove. Aí o vizinho passa e um boa noite acontece. Passa a vizinha e ela sorri, meio tímida, constrangida. Lamento. Penso que no primeiro andar eu teria mais privacidade na rede. O quintal é bem pequeno, é por isso que gosto da rede, é perfeito. Não sei explicar, é amor.

Outro dia estava acompanhado do Marcelino. Cada conto que nem te conto. Você lê querendo gritar, se envolve. Os críticos dizem que é a técnica do discurso direto. O recurso da oralidade. Eu digo que é o da realidade. Ele é Freire e não Freyre. É a realidade por ele, não pelo outro. Quem fala ali é Maria, é Antônio José, não Strauss ou Peter Burke. A paisagem é da Muribeca, não de Apipucos. É na rede que fico só acompanhado. É amor, não sei explicar.


quinta-feira, 15 de março de 2018

Eu choro escondido


A tristeza começou no Bom Dia
Brasil, o que está acontecendo?
Daquela morte para um gol?
Uma notícia qualquer
Você quer?
Assim, sem pausa nem lamento
E meu tormento? E a lágrima?
Que começou a escorrer dos meus olhos
E insistiu quando ouvi o ATENÇÃO!
Ao dobrar uma esquina
E aquele grito agudo, Gal
ATENÇÃO, MENINA
Atenção, tudo é perigoso
1
2
Três
Quatro
Nove, para garantir que não foi por acaso
A casos de quem queira pensar assim
Ainda temo que estou perdido
Eu choro escondido.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Um Free

Imagem relacionada


Sujei-me
Fumando apenas
Um Free
Seu preferido
Recordei-me
Dos jogos de adivinhação
Hoje foi Hollywood
Errou
Carlton
Você fumou, Carlos?
Não
Cigarro não mente, Carlos
Ele marca
A camisa
O cabelo
A boca
Hoje
Sujei-me
Estive atordoada
E sem o sabor dos seus beijos