terça-feira, 1 de maio de 2018

Só acompanhado




Descobri algo novo. A rede é meu habitat natural. Não sei explicar, é amor. Nela não estou deitado nem sentado, estou na rede. O sono não aparece como quando tento ler na cama, nem aquele soninho bocejante da mesa de trabalho.

O Nelson me acompanhou um tempo. Vi até uma peça dele esses dias - os críticos disseram que a montagem foi infeliz, tenho pouco para falar, só que assisti. Estava lendo esses dias “A pátria em chuteiras”. Tem Copa do Mundo na Rússia este ano. Estamos em 2018. Não sou o fã de futebol, meu time tem talento pra perder. Mas esse ano foi diferente, ele foi campeão do Pernambucano, amém.

Estava com Nelson pela narrativa. Quieto na rede, fico encantado com sua forma de contar os episódios. Um exemplo foi o salto de Didi no jogo do Brasil 3 x 1 Uruguai, em algum campeonato de 59. Um salto que Nelson transformou em um quadro, uma pintura que Miguel Ângelo assinaria.

Com Nelson um salto passa a ser um voo. “O jogador ficou leve, alado, incorpóreo”. O mais impressionante é que a descrição era de uma briga, e o salto, uma voadora! Sim, uma voadora! O Uruguai ganhava de 1 x 0 e o jogo estava violento, quando, de repente, estourou a briga que envolveu os 22 jogadores, os reservas, a comissão técnica e os jornalistas dos dois países – perdão pelo exagero.

“O momento mais artístico da pancadaria foi a monumental intervenção de Didi. Tomou distância e correu. Havia um bolo de uruguaios. E todo o estádio parou no espanto do salto, tão plástico, elástico, acrobático. Com os dois pés, fendeu e debandou o grupo inimigo. A plateia argentina quase pediu bis”, contou o Nelson na Manchete Esportiva, em abril daquele ano.

Nem falei das aulas de história que ele me dá. No Jornal dos Sports, dois anos à frente, ele comentava que era tricolor e estava explicando que não era de hoje, ou melhor, de 61. Era tricolor antes do próprio Fluminense. Sem perdão do exagero, era tricolor antes de Cristo. E argumentava que o ser humano precisa colocar tudo em “termos de memória”. E dizia “sou dos que creem que o homem é, sobretudo, passado. O presente pouco importa e o futuro menos ainda. As coisas só tomam o seu exato valor quando evocadas”. É, a memória que potencializa todas as nossas experiências, e isso eu concordo, Nelson.

Cá estou eu evocando uma paixão recente. Criando memória. É amor recente. Desses que a gente vai se envolvendo aos poucos e quando se percebe, já está meio perdido. Não vê a hora de chegar do trabalho, tomar banho, jantar e ir para a rede.

Às vezes estou distraído olhando o tempo, chove não chove. Aí o vizinho passa e um boa noite acontece. Passa a vizinha e ela sorri, meio tímida, constrangida. Lamento. Penso que no primeiro andar eu teria mais privacidade na rede. O quintal é bem pequeno, é por isso que gosto da rede, é perfeito. Não sei explicar, é amor.

Outro dia estava acompanhado do Marcelino. Cada conto que nem te conto. Você lê querendo gritar, se envolve. Os críticos dizem que é a técnica do discurso direto. O recurso da oralidade. Eu digo que é o da realidade. Ele é Freire e não Freyre. É a realidade por ele, não pelo outro. Quem fala ali é Maria, é Antônio José, não Strauss ou Peter Burke. A paisagem é da Muribeca, não de Apipucos. É na rede que fico só acompanhado. É amor, não sei explicar.


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