quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Flutuando

A confiança é um encanto
a brecha para partilhar pecado.
“E agora, o que farei?”
Entrega inquietações, distraído,
caído, diante do confiado.
Flutuando na amizade, vacila.
Acorda-se ainda atordoado.

A rescisão da confiança é o desencanto
a frecha que desvela o já anunciado
“Como não enxergava?”
Questiona-se o traído,
atraído, diante do quebrado.
Flutuando do golpe, cintila
Estamos entre perdoar e ser perdoado.

A vida é um desaguar-se em canto
a espreita do recanto esperado
“Onde estão as melhores músicas?”
Ou o verso não destruído,
esquecido, de tão guardado.
Flutuando em encantos e desencantos
É o viver emancipado.



sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Em crises de tempo

Em crises de tempo
Em tempos de crise
Um projeto de crise
Arrasta-se no tempo

Está sucateado
Está para vender
E para vender
Deixa-se sucateado

Cria-se um monstro
É hora de odiar
A culpa é toda dele
Não temos como provar

Em crises de tempo
Em tempos de crise
Um projeto de crise
Arrasta-se no tempo

Tem PEC para mim
Tem PEC para tu
Mas sendo pobre
Tu tomas no

Criou-se uma lei inteira
Cumprindo a metade
O meio presidente
Para meio sociedade

Em crises de tempo
Em tempos de crise
Um projeto de crise
Arrasta-se no tempo

Acorda, Maria
Sai do frio, José
Vem, Drummond
Dizer como é

Não quero ver
Meu Deus, novamente
O Bandeira viu
O bicho era gente.

Recife, 27/10/16

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Desencontro/desencanto.


Primeiro foi a pequena agenda
Será dia dezessete à tarde
Mas viajarei nessa semana
Há quem me ama e eu perco
E tem datas que esqueço

Alguém viu meu caderno?
Todos os relatórios do semestre
Os fichamentos e os encaminhamentos
Estou perdendo o que me serve
E tem pessoas que me perdem

Ouvia elogios que não me alimentavam
O ego se negava encher
Sabia que aquele
Elegante, amante, poeta
Não era por merecer

Domingo eu olhava o silêncio
Que dessa vez estava vazio
Na sexta o sonho tinha me amedrontado
Tenho andado atordoado
O desencanto surgiu.

Recife, 09/08/2016

domingo, 22 de maio de 2016

Diálogoimagem III

Um chão marcado
Mira o pé cansado
De algum tratado.

Museu da Abolição
Recife, 27 de janeiro de 2016

segunda-feira, 9 de maio de 2016

quarta-feira, 13 de abril de 2016

o rio que corre
foge de mim
o rio que finge
corre pra si

na imensidão 
o choque
(h)á pressa pra solidão?

corre
foge

agora tão misturado
salgado
sente saudade.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Não era meu.

Ela alegou que éramos parecidos
éramos alegres iguais
éramos cheios de amigos iguais
Que nossos desgostos musicais
e o desprazer por festas eram os mesmos.
Alegou que nos conhecíamos
os pecados e sonhos.
Mostrei-lhe um poema
Ela ficou confusa
Pensou que lhe havia escrito.
O poema era bonito e falava dela comigo.
O poema não era meu – por sorte.
No passado... Ah, no passado.
Recordo-me:
A felicidade de Isabel quando lhe escrevi de um carnaval
Renata se encantava quando se via nos versos
(Certa vez veio pedir desculpas pela falta de recíproca – que boba).
Adriana se encantou quando se viu descrita em versos mordidos
Hadassa me deu depois de um poema que ela sabia que era para ela
mesmo sem dedicatória.
Mas essa moça de agora...
"Droga, ele me escreveu, que merda."
O poema não era meu
Por sorte.
Sim, também acredito
somos parecidos.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Série: Haikai kurto e grosso (4 de 4)


Série: Haikai kurto e grosso
Colagem: Edu, Diego Davi e Matheus Pinheiro
Fotografia: Carla Sellan.

"o Recife e seu cheiro
de ódio e amor
certeiro!"

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Maré baixa.

Passam das vinte e uma e o celular permanece mudo, não conversa comigo, uma ligação, uma mensagem, uma demonstração sequer de carinho, nada. Passam das vinte e uma e ela não. Nada. A bicicleta alugada aparece como única solução, digo, companhia.

Saio de um dos únicos bairros com nome de senhora numa cidade d’água, onde o que não é várzea já foi afogados. Da dona Madalena passo pela Benfica, mas só passo, quase que como um internacional. Na paisagem que se segue um rabisco de Burle Marx, que quando eu era menino eu ia ver peixe-boi no aquário no centro da praça, mas hoje tem como moradores os esquecidos e sem nomes, que faz desse pedaço de verde um lugar de passantes. E para catalizar meu passamento, vejo passando uma beautiful teacher de mãos dadas com uma barba maior que a minha. Por que mesmo eu aparei minha barba?

Cruzando o que desejaria que fosse um dos poucos resquícios da monarquia e o que outrora pode ter tido uma boa vista, a solidão se estende, vejo-a também nos transeuntes. O que esta acontecendo contigo, Recife? Nem o set de filmagem da obra de Guel Arraes parece acolhedor. Cheio de gente, mesas, cadeiras, heinenkens e vazio. O reduto dos “artistas” da cidade que é tão central me pareceu um polo, o polo errado pr’eu estar. Foi aí que perdi a vontade da cerveja e lembrei de um lugar onde fico bem.

Estacionei a bicicleta entre o Paço Alfandega e a Livraria e fui olhar o Capibaribe. Talvez eu não devesse ter saído de casa, maré baixa e o lixo amostra. Mas me deixei ficar. Aquele cenário já foi palco de muitas viagens minhas e nelas me perdi novamente, mas desta vez em recordações apenas. Pib pib pib, pib pib pib. O celular me trazia de volta e me lembrava da hora de colocar o budesonida no nariz. Vinte e duas, hora de voltar. Pego a bicicleta e pedalo de volta.