terça-feira, 13 de agosto de 2013

Amor pobre, pobre amor?!

Uma bituca de cigarro no chão ainda soltava fumaça quando João sentou-se no batente em frente onde tinha marcado de se encontrar com Ana. João e Ana já namoravam há um mês e nesse dia Ana faria uma revelação para o João.

Ana pisa na bituca do cigarro apagando-o por definitivo e senta-se do lado do namorado, os dois se beijam e trocam carinhos habituais de um casal. Cessando os afetos, Ana diz a João que precisa lhe falar algo. João está apreensivo.

- João, queria lhe contar uma coisa, mas antes queria que você soubesse que eu te amo e que nunca o traí.

Para aí. Será que em um mês de namoro já há espaço para uma traição? Não que haja um período mínimo de tempo de relacionamento em que a traição já pode ser recebida sem problemas. Não, não estou dizendo isso. O que me questiono é porque Ana se preocupou em iniciar o diálogo afirmando que nunca traiu João, estando os dois namorando apenas há um mês? E o que você acha da traição?

- Por que você está falando isso, assim, agora, aqui? É porque eu não digo “eu te amo”? Saiba, eu te amo muito, Ana!

João fica nervoso, está apaixonado. Pega um cigarro, o isqueiro vermelho e faz fumaça. Ana por outro lado está bastante calma, cheira o namorado, o que o acalma.

- João, eu acredito que o amor preso é um amor pobre. Eu te amo e tu me amas, isso é lindo eu sei, mas só isso não é tudo. Não quero te ver preso...

João não consegue compreender a menina. Está assustado. “Pobre? Amor pobre?” Não entende. Continua ela:

- Você conhece o Amor Livre?

João está estatelado, pranchado, estupefado, abismado, confuso... Não ouve mais nada. Menino do interior, nascido e criado em Ribeirão, Zona da Mata Sul de Pernambuco, não compreendia como aquela doce menina por quem se apaixonara, agora falava essas coisas...

- Surgiu no século XIX e sua ideia, deturpada com o tempo, não representava a liberdade sexual em si, pura e simplesmente, mas a liberdade de se relacionar com quem quisesse...

O rapaz dá o ultimo trago no cigarro. Respira fundo. Dá um beijo na moça e diz: “foi um prazer ter te conhecido”.
Ana fica triste, chora um pouco. Tinha se apaixonado por ele também, mas suas convicções eram maiores. Tira um espelho da bolsa, se olha, guarda o espelho e vai embora. Nunca mais os vi por aqui.

5 comentários:

  1. Apenas uma desculpa para acabar um namoro!!!

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  2. Cara, digamos que só vi até essa cena, e ela acabou aí, sem um diálogo, sem que João tentasse compreender a menina... Mas o que ocorreu depois disso eu não sei, não vi.

    A vida tem dessas coisas de ser incompleta.
    A vida tem dessas coisas de ser incerta.
    A vida tem dessas coisas de ser injusta.
    A vida tem dessas coisas de ser vida.

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  3. A incompreensão ditou os caminhos do amor pobre deles dois! Se não há espaço para o diálogo, para se buscar entender melhor o alguém a quem se ama, então dificilmente haverá espaço para outras possibilidades de enriquecer o relacionamento, seja com a liberdade de um amor livre, ou com a extrema fidelidade.
    O texto suscita uma continuidade sim, mas não o jugo incompleto. O rapaz se levanta e sai com o amargo gosto do seu cigarro, levando consigo a possibilidade de uma continuidade na história deste casal. Quem sabe um não acabe reencontrado o outro, em outras circunstâncias...

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  4. Se o texto ficou incompleto...?! O Amor, em geral, fica incompleto também. Depois do beijo, depois do adeus, depois do tapa... sempre caberia algo mais. Mas não vem... O medo pontua os períodos com que compomos nossas histórias amorosas. Tantos pontos finais absolutamente inadequados... tantas interrogações se respondem por si.
    Deixa Ana e deixa João!

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