sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Madeleine: diálogos (im)permanentes



Muito lisonjeado recebo a missão de discorrer sobre minha relação com o professor Antônio Paulo Rezende. Saber de sua aposentadoria é saber que as próximas gerações de historiadores não terão na sua formação, provocações instigantes e leituras intrigantes dentro de aulas tão relaxantes – “essa tarde vamos acabar ouvindo música, Piazzolla”, outro dia “hoje, Milton Nascimento”, recordo.


Certamente, fui convocado por ter sido seu orientado no mestrado defendido recentemente. Momento ímpar na minha vida. Orientação conselheira. Atenção as regras, porém, sobretudo, a ousadia. As regras da escrita acadêmica encontrávamos, entre tantas referências apresentadas, nas obras Nicolau Sevcenko; a ousadia, na literatura, como a de Paul Auster.


Todavia, nesse breve depoimento, quero destacar um episódio que marca toda minha formação e, certamente, a de outros colegas, este lá no início da graduação, o grupo de estudo Madeleine: diálogos (im)permanentes. Estávamos no final do segundo período, éramos alunas e alunos cheios de sonhos e curiosidades. Procuramos o professor Antonio Paulo ao término da última aula, gostaríamos que os encontros não findassem, queríamos saber se haveria uma eletiva ministrada por ele, quando na conversa ele disse que poderíamos nos encontrar quinzenalmente para discutir algumas leituras. E assim começava o grupo.


O Madeleine contou com a participação de muitos colegas, mas teve em seu núcleo duro Estevam Machado, Flávia Bruna, Maria Clara Cavalcanti, Matheus Martins e Rafael Santana – com exceção de Matheus Martins que foi fazer mestrado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os demais fizeram mestrado e estão no doutorado na UFPE. Com eles, e sob a coordenação de Antônio Paulo, fiz importantes leituras e participei de fundamentais debates para minha formação, que versaram sobre os escritos de Frederick Nietzsche, Hannah Arendt, Jeanne Marie Gagnebin, Sigmund Freud, Walter Benjamin, entre outros.


Ao saber do processo de titulação Professor Emérito da Universidade Federal de Pernambuco, quis registrar o grupo de estudo Madeleine: diálogos (im)permanentes. Um espaço de sociabilidade e afetividade na graduação, gerado do encontro de meninas e meninos inquietos com o professor Antônio Paulo Rezende. Não havia financiamento, apenas o desejo que nos juntou a cada quinze dias durante dois anos, 2011 e 2012.


 

Eduardo Castro

Recife, 12/08/2020


Depoimento realizado a pedido dos professores Isabel Guillen e Flávio Weinstein, durante o processo de atribuição do título de Professor Emérito da Universidade Federal de Pernambuco ao professor Antônio Paulo Rezende, que registro aqui confirmando a dimensão afetiva do escrito.


sábado, 16 de maio de 2020

E se nunca mais pudermos sair de 2016?

E se nunca mais pudermos sair de 2016? Uma brincadeira jogada na internet, um clássico meme que me surge na memória faz pensar que seu autor profetizava. Quem lembra de 2017? A caterva política nacional se articulava para tirar direitos trabalhistas e fugir da Lava-Jato, ou “estancar a sangria” (JUCÁ, Romero, 2016). E 2018, foi o que mesmo? Rio de Janeiro sob intervenção militar. Polícia confunde um guarda-chuva com um fuzil e atira e mata um jovem negro. Oitenta tiros (80 tiros) em uma família negra passeando de carro - será que foi de uma metralhadora ponto 100 como “a delação da Odebrecht” (SARNEY, José, 2016)? Ainda teve 2019. Uma reforminha na previdência, alguns anos a mais trabalhando para, finalmente, se sobreviver, ter o direito da aposentadoria. Diziam que era um esforço coletivo para o bem do país, afinal, era o desejo da maioria, mesmo que os votos para a aprovação tenham sido dedicados à família, a filhos e netos (Câmara dos Deputados, 21/04/2016). Então chegamos ao ano 2020 e com ele chegou uma gripezinha. O resfriado que essa gripe vem causando já matou mais de 15 mil brasileiros, em sua maioria pobres que no hospital não encontraram leitos. Porém, isso é preocupação dos coveiros, "o importante é tirar ela agora e salvar a economia" (imprensa nacional, 2016). Lembram? Está em curso outro conjunto de obras. Você pode ter se enganado lá no começo, tudo bem, mas se escolhe continuar apoiando tudo, você é cúmplice, assim é responsável também pelo crime.