“Ao meio da jornada da vida, tendo
perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado em selva tenebrosa”. Como as
aspas anunciam, não são minhas as palavras. Pelo contrário, tenho me
encontrado, se do “caminho verdadeiro”, não sei, mas, entre trancos e barrancos
acredito que estou próximo. No anseio de discorrer sobre o mal-estar causado
pelo desacerto ocorrido, recordo outro episódio, que acalenta um pouco
minh’alma e também sinto vontade de narrar.
A citação que iniciei é do livro A Divina Comédia, de Dante Alighieri,
escrito no século XIII e lido em menos de três semanas por Isabel, do 9º B,
minha aluna da disciplina Ensino Religioso, onde tenho trabalhado ética e
respeito nesses dias de selva tenebrosa.
Explico. Quando preparava aula sobre
o Renascimento e o Humanismo para meus alunos dos sétimos anos, lembrei que
tinha entre meus livros O Príncipe,
de Maquiavel e A Divina Comédia, de
Dante. Resolvi levar para a sala de aula, queria mostrar que de fato as obras
pensadas pelos renascentistas de fato atravessaram o tempo e uma cópia daquilo
estava na frente deles. O Resultado foi bem menos interessante do que deixar os
meninos comerem pimenta e gengibre – a aula era sobre as Grandes Navegações.
Outro dia eu estava na direção,
resolvendo alguma coisa quando Isabel entrou e perguntou ao gestor se poderia
pegar um livro emprestado da biblioteca, a resposta foi um ríspido “não”, com
frívola explicação. Terminei o que resolvia e corri a procura da aluna. Sem
querer perder o timing, ofereci o que
tinha em mãos. Expliquei as obras numa tentativa de justificar a forma da
narrativa, ela pegou O Príncipe. Em
uma semana ela estava devolvendo. Falou-me a quantidade de palavras novas que
aprendeu e que não conseguiu entender tudo. Pediu o outro antes que eu
oferecesse.
Tive apenas uma tentativa de leitura
de Dante, assim que peguei o livro. Não atingi o ritmo da leitura, o pretérito
perfeito, por exemplo, não fizera parte da minha formação básica, somei a
quantidade de texto que tinha que ler por obrigação e abandonei a obra. Nunca
voltei. Recordei isso sorrindo sentado na sala dos professores depois de ouvir
Isabel dizer “capa dura(!) quero ler livro assim” e levar consigo minha edição.
Três semanas depois ela me devolveu
pedindo que a fizesse perguntas, ela queria provar que era fato sua leitura. Hesitei, dois segundos. Disse: Isabel, eu nunca li esse livro, vou fazer uma
prova domingo e em seguida eu leio, em algumas semanas a gente conversa, pode
ser? Respondeu sorrindo positivamente. Dessa vez estava preparado, antes que
perguntasse eu apresentei Marçal Aquino, Jo-Ami, o Diário de Anne Frank e,
óbvio, dois Machado de Assis.
A alegria orgulhosa de ter atentado
para a leitora e hoje estar trocando figurinhas com ela se embaralhou em minha
mente, porque foi na sala dela que errei um conceito. Explicando a relação de
Deus e a estrutura das leis a serem seguidas no país, disse o significado de
uma palavra errado. Dificil admitir erro. No (nem tão) alto da posição, abdicar
de orgulho é difícil. Às vezes nos distraímos e cometemos equívocos. Mostramos
falhas, de todos os tipos. Recordo-me que meu objetivo é a tentativa de acertar
e me dou outra chance. Hoje comecei a ler A
Divina Comédia e próxima semana corrijo com os meninos do 9º B.
Bem profundo. Meu amigo poeta! Me orgulho de te conhecer!
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