sexta-feira, 26 de julho de 2019

"A Divina Comédia"

“Ao meio da jornada da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado em selva tenebrosa”. Como as aspas anunciam, não são minhas as palavras. Pelo contrário, tenho me encontrado, se do “caminho verdadeiro”, não sei, mas, entre trancos e barrancos acredito que estou próximo. No anseio de discorrer sobre o mal-estar causado pelo desacerto ocorrido, recordo outro episódio, que acalenta um pouco minh’alma e também sinto vontade de narrar.

A citação que iniciei é do livro A Divina Comédia, de Dante Alighieri, escrito no século XIII e lido em menos de três semanas por Isabel, do 9º B, minha aluna da disciplina Ensino Religioso, onde tenho trabalhado ética e respeito nesses dias de selva tenebrosa.

Explico. Quando preparava aula sobre o Renascimento e o Humanismo para meus alunos dos sétimos anos, lembrei que tinha entre meus livros O Príncipe, de Maquiavel e A Divina Comédia, de Dante. Resolvi levar para a sala de aula, queria mostrar que de fato as obras pensadas pelos renascentistas de fato atravessaram o tempo e uma cópia daquilo estava na frente deles. O Resultado foi bem menos interessante do que deixar os meninos comerem pimenta e gengibre – a aula era sobre as Grandes Navegações.

Outro dia eu estava na direção, resolvendo alguma coisa quando Isabel entrou e perguntou ao gestor se poderia pegar um livro emprestado da biblioteca, a resposta foi um ríspido “não”, com frívola explicação. Terminei o que resolvia e corri a procura da aluna. Sem querer perder o timing, ofereci o que tinha em mãos. Expliquei as obras numa tentativa de justificar a forma da narrativa, ela pegou O Príncipe. Em uma semana ela estava devolvendo. Falou-me a quantidade de palavras novas que aprendeu e que não conseguiu entender tudo. Pediu o outro antes que eu oferecesse.

Tive apenas uma tentativa de leitura de Dante, assim que peguei o livro. Não atingi o ritmo da leitura, o pretérito perfeito, por exemplo, não fizera parte da minha formação básica, somei a quantidade de texto que tinha que ler por obrigação e abandonei a obra. Nunca voltei. Recordei isso sorrindo sentado na sala dos professores depois de ouvir Isabel dizer “capa dura(!) quero ler livro assim” e levar consigo minha edição.

Três semanas depois ela me devolveu pedindo que a fizesse perguntas, ela queria provar que era fato sua leitura. Hesitei, dois segundos. Disse: Isabel, eu nunca li esse livro, vou fazer uma prova domingo e em seguida eu leio, em algumas semanas a gente conversa, pode ser? Respondeu sorrindo positivamente. Dessa vez estava preparado, antes que perguntasse eu apresentei Marçal Aquino, Jo-Ami, o Diário de Anne Frank e, óbvio, dois Machado de Assis.

A alegria orgulhosa de ter atentado para a leitora e hoje estar trocando figurinhas com ela se embaralhou em minha mente, porque foi na sala dela que errei um conceito. Explicando a relação de Deus e a estrutura das leis a serem seguidas no país, disse o significado de uma palavra errado. Dificil admitir erro. No (nem tão) alto da posição, abdicar de orgulho é difícil. Às vezes nos distraímos e cometemos equívocos. Mostramos falhas, de todos os tipos. Recordo-me que meu objetivo é a tentativa de acertar e me dou outra chance. Hoje comecei a ler A Divina Comédia e próxima semana corrijo com os meninos do 9º B.