A cidade do Recife não está preparada para as chuvas – a bem da verdade, suspeita-se de que nunca estará, sai governo, entra governo e assistimos as mesmas catástrofes na TV. Mas há episódios que não vão para os jornais e gostaria aqui de relatar.
O
histórico bairro da Torre, palco das invasões holandesas às dependências do
engenho de açúcar dos Uchoas no século XVII, bem como da Companhia Fiação e
Tecidos de Pernambuco – para os íntimos, a Fábrica da Torre –, agente importantíssimo
no processo de industrialização do estado de Pernambuco, iniciado na segunda
metade do Século XIX, é também palco do sagrado dominó da praça. A jogatina semirreligiosa
começa junto com a noite. Às dezenove horas em ponto as pessoas se juntam e tem
início a primeira partida, com a próxima dupla já formada, assistindo a iniciada
competição. Mas quem leva a mesa, as cadeiras, o dominó?
Está aí
uma difícil questão. É repentino. Em questão de segundos, o palco está armado.
Embaixo da iluminação, utilizando um dos bancos fixos, outras três cadeiras
emergem ao redor de uma mesa que parece que já se encontrava ali. O grande
público vai chegando aos poucos e formando uma assembleia. Meu pai, por exemplo,
era um desses que passava pela cerimônia. Morador de outra cidade, não poderia
ser um religioso, ia quando podia. Minha avó, que Deus a tenha, morava muito
próximo à praça. Assim, quando meu pai ia visitar a mãe, aproveitava e ia para
uma partidinha, jogava até perder – é claro que ele demorava a levantar.
Foi nesse
dominó da praça que vi pela primeira vez o seu Conrado. Lembro-me como se fosse
ontem à noite:
- Deveria ter uns 12
para 13 anos, tinha acabado o futebol, também ali na praça – outro episódio dos
poucos que guardo da infância, o “jogar bola” na praça, onde os bancos dos
casais namorar eram usados como barras/traves – e estava esperando meu pai
perder a partida ou terminar a rodada para irmos embora. Seu Conrado estava na
plateia, esperando sua vez de sentar à mesa, e entre o banco que eu estava e o
centro da praça onde acontece o vaivém das peças, um casal trocara os beijos
apaixonados por uma discussão em tom elevado. Recordo daquele senhor se
aproximar do casal e dizer de forma leve: nem oito nem oitenta, trinta e seis!
Na época,
o que mais me impressionou foi a reação do casal para aqueles números: sem
hesitar eles findaram a discórdia. Não compreendi nada do que aquele senhor proferiu,
mas entendi que deveria aprender. Aos poucos passei a puxar assunto com o seu
Conrado, sempre que o via na assembleia, antes de sentar para o sagrado jogo,
eu me aproximava e conversava com ele algo genérico, chamando sua atenção. Hoje
de tudo discutimos. Em toda sua vida, seu Conrado deve ter lido a metade dos
livros que eu já li, mas eu não tenho um terço da sabedoria que ele possui. É sempre um aprendizado parar na praça e
prosear quinze minutinhos. Porém, quando chove no Recife, não tem dominó na
praça.
Ilustração: Theus Pinoli

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