terça-feira, 24 de novembro de 2015

Procura-se um cúmplice.

Testamento de um Gângster (1963)

Alguém que corrobore com meus crimes,
que me dê cobertura e ideias.
Alguém que afirme 
que eu estava sim,
onde eu não estive.
Que limpe a prova do delito
não dito de ontem à noite.
Os crimes sempre dolosos, 
quiçá hediondos,
do qual visaremos o ilícito,
não explícito.
Alguém que seja solícito.

Alguém que tenha fraca ideologia,
que saiba que política é importante,
mas que concorde
que é melhor discutir isso amanhã.
Um cúmplice para o pecado
e que saiba que pecado não existe.
Um cúmplice para as responsabilidades,
que é  andar nas vielas das cidades,
que ainda resistem. 

Auxiliar-te-ei nos teus erros,
e nos teus acertos de contas.
Emprestar-te-ei dinheiro sem juros,
usuras e frescuras.
Nos teus crimes estarei presente,
do outro lado da rua,
dentro do carro de portas abertas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Arthur e Bruna eram quase um – ou ainda são. (reedição)

Foi em um sábado de manhã, Arthur já estava acordado e tomava café, sim só café. A televisão estava ligada, porém para as paredes, o importante era o som que ela soltava no apartamento, porque os pensamentos de Arthur voavam displicentes.

De repente o som do televisor é incomodado pelo da campainha. Arthur se assusta, não eram nem 10 da manhã e ele não esperava visita. Preocupado veste uma camisa e aproxima o olho direito do olho mágico. Outro espanto. Era Bruna.

Bruna: ex-namorada, ex-cumplice, “ex-amiga”. Namoraram por quase dois anos e os amigos diziam que eles eram quase um. Era ela!

A aparição súbita de Bruna causou um torpor inexplicável em Arthur, era um êmbolo com alegria e tristeza.

“Como assim? O que ela quer? Esqueceu algo?” Se indagava Arthur.

Abre a porta.

- Cuidado, mudei alguns moveis de lugar.

Com uma fala carregada de ironia e talvez rancor, Arthur recebeu a menina.

Timidamente Bruna adentra o apartamento, que até quase pouco tempo era praticamente seu segundo habitat. Arthur ajeita café. Os primeiros diálogos são tácitos, monossilábicos. Oi. Oi. Tudo bem? Tudo bem.

Não se olham. Um macho medroso e uma fêmea tímida.

- Você já começou o novo estágio? – São sempre as mulheres que começam.

O rapaz está tão atordoado que contesta apenas com o movimento da cabeça. Ele não sabe como reagir com a presença dela. Ele não sabe o que representa.

A campainha toca. Quem será agora? Pensa Arthur.

- Você está esperando vista? Estou atrapalhando?

- Não. Este dia é atípico tomando como parâmetro meu ultimo mês.

Arthur vai ao olho mágico. MÃE?!

- Oi, Arthur, oi, Bruna. Arthur, sua tia está muito mal, tive que trazê-la para o Recife ontem à noite. Só vim tomar um banho e já vou embora. Desculpe por não ter avisado, sei que você não gosta. O que houve aqui? Vocês estão brigando? Vou para seu quarto e depois tomarei banho. Vou deixar vocês à vontade.

Bruna está surpreendida, Arthur ainda não tinha contado para sua mãe. De certa forma, isso a deixou feliz.

Em alguns passos e estão na varanda. A intenção dele era se afastar para sua mãe não auscultar.

Talvez não fosse a intenção de Arthur, mas na varanda eles ficaram mais próximos, quase se tocam. Maior contato entre eles no ultimo mês.

- Arthur, refleti muito esses dias e ontem à noite eu lembrei um pouco mais de você, ou da gente, e vi que era hora de vim falar com você.

Enquanto ela fala, eles se aproximam. É visível o nervosismo em ambos. Bruna continua falando, monologo rico e completo, daqueles que minha mente limitada de homem não consegue reproduzir. Perdon.

“Por um tempo o amor funciona por si só!” Afirmaria algum especialista em sentimentos se referindo a essa cena que findou com um beijo. É (!) eles se beijaram. Sabe aquele beijo que ninguém consegue apontar quem começou? Foi exatamente assim.

Como a vida não é um conto de fadas, e os episódios em nossas vidas são cheios de desacertos, talvez Arthur tentasse protagonizado mais um. Arthur corta o afeto no meio e se afasta da menina lamentando.

- Desculpa.

- Estou grávida!


Fim(?).


sábado, 8 de agosto de 2015

Você era

Você era alguém Alguém que ouvia Meus segredos Os pretéritos E os preferidos Você era alguém Que eu tinha segurança De revelar Minhas inseguranças O maior caso Mesmo sem caso Mas com DRs Discussões morais Éticas e raciais As maiores brigas Eram por besteiras Leseiras Congêneres. Você era alguém.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Kero

Ela se ria De longe quieto eu via Aquilo me envolvia Ela se ria Gargalhada frouxa Seios firmes Desejo grande Sentia esse trouxa O beijo ruim Porque não foi em mim De perto Inquieto Eu vi Doeu Dois mil e lá vai o trem Dois mil e um vintém Dois mil e mais querela Dois mil e novamente ela Agora era carnaval Mais uma vez o sorriso Tão natural Sorriso de menina Sorriso cativante Voltou a mexer comigo O riso empolgante Um beijo bom Porque foi em mim De perto Inquieto Nem vi Senti.

sábado, 23 de maio de 2015

Pensamentos concentrados, atentos e pretensiosos.


Encontrei-o ontem à noite. Cumprimentamo-nos. Um aceno de mão apenas, ou menos até, um balançar de cabeça. Estranho pensar que há uns meses tudo que eu planejava, eu planejava com ele. Viagens, feriados, balada, cinema. Tudo fazíamos juntos. Ele era meu namorado. Ontem ele me foi quase um desconhecido.  Apenas cumprimentei.



Caralho, hoje foi foda. Ela ficou bem pertinho de mim, senti seu cheiro. Minha memória trabalhou e meu corpo reagiu, músculos se alongaram, outro entrou em disritmia. O olfato e a memória. Concentrar não foi simples, a silhueta do seu corpo ganhou forma na minha mente, até o sinal do lado direito se fez presente na composição. Respirei fundo. Concentrei-me. Terminamos o questionário que tínhamos para responder. Dispersamo-nos, segui para um lado e ela para o outro.



Só de falar com ele fico nervosa. Fui dormir tarde ontem, mas dormi faceira. Ele respondeu minha mensagem, proseamos por horas. A cada resposta eu ficava nervosa em ler. Impressionante como ele me balança. Recordo-me dos nossos encontros no terceiro andar, da sua barba me tocando, dos seus olhos fixos em mim. Que confuso tudo. Queria que fosse simples. Droga! tenho que pensar em outra coisa, meu namorado está vindo.



Preciso estudar. O professor já me chamou atenção. Escreveu o artigo? Leu a tese que lhe indiquei? O seminário está pronto? Fiz nada, essa é a verdade. Venho concentrando minhas energias em pensar sobre comprar uma bicicleta. Esse mês ou o outro eu faço isso. Compro uma bicicleta.

sábado, 16 de maio de 2015

Às vezes eu toco violão
Mas eu nem sei tocar bem
Isso importa pouco
Passo uma tarde em diversão
Eu e o violão
Tento tocar uma música de Chico César
Outra de Luiz Melodia
Rio da minha desafinação
Nunca chego ao tom
Isso importa pouco
Bom é quando me ponho a compor
Já tenho mais canções que livros
Todas muito ruins
Mas eu me divirto
Uma vez fiz uma música
Ela ouviu e ficou faceira.

terça-feira, 31 de março de 2015

Série: Haikai kurto e grosso (3 de 4)


Série: Haikai kurto e grosso
Colagem: Edu, Diego Gonzaga e Matheus Pinheiro
Fotografia: Carla Sellan.

terça-feira, 24 de março de 2015

Obedecendo o poeta.

Sem saber se sofria ou se fazia-se esquecer da querela, a menina questionou:

- Oxum, amor só é bom se doer?

- Filha, não acredite em poetas, eles possuem o dom de saber mentir.


Recife, de chuva, março de 2015.

terça-feira, 3 de março de 2015

Um de cada.





















Moraes

Viniciei-me
Ah quem dera poder viniciar-se
Fazer samba de um amor
Amor em um samba
Dizer adeus
Em tom 
De te amo.



Paulo

Leminski despertou Bemol 
Onde tudo estava Sustenido 
De longe o vi Diminuto 
Mesmo ele sendo Maior 
Tudo por causa do: Acorde! 
Na manhã de Quinta.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

A culpa é dos meus amigos, mas a responsabilidade é minha /Desejo súbito.


Tua postura. Teu corpo. Te quero! Te quero assim, bem coloquial, e a culpa é dos meus amigos, mas a responsabilidade é minha. Sou eu que te desejo. Sou eu que quero teu cheiro no meu corpo, teus seios nos pelos do meu peito, tua boca na minha boca. O que os meus amigos tem a ver com isso? Eles disseram que nós combinávamos. Eles acreditam que eu estou te comendo, que estamos tomando café juntos depois do sexo. E na mente deles, tu está curtindo, tu está desejando mais. Fodeu! Agora eu quero isso! Deixar-te nervosa, morder tuas orelhas e teu pescoço, passar minhas mãos por tuas verdades, sentir teu corpo trêmulo. Fazer-te gozar. Gozar. E gozar novamente. Depois disso, tomaremos um café, vamos dividir um cigarro e conversaremos sobre.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Inquietei-me

Adianto-vos logo:
Tudo que pretendo dizer
Carece de verdade.
Tome como um desabafo
Desencanto desalento.
Diz a Nando, diz a Nanda
E a Amanda.
Divulga a todos que conheço.
Os que nunca flertaram miudezas comigo
Poupe-os.
Há festa lá fora sim
(E aqui, e aí)
Mas há fresta
E resta observar
Tome nota
Eu vou falar:
Não me venham taxar-me de louco
Como fazem os que foram poupados
Eles estão perdoados
Não viram a fresta
Não viram o medo
Não viram o homem
Sem nome
Chamado de bicho
Porque sentia fome.
Não viram o amor,
Pensam que viram.
Aquietaram-se
Já eu? 
Inquietei-me.
Inquietei-me ao medo
A fome e a isso que dizem amor
Que disfarça a rudeza da vida.
A vida é um abismo
Dói menos saber.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Série: Haikai kurto e grosso (2 de 4)


Série: Haikai kurto e grosso
Colagem: Edu, Diego Gonzaga e Matheus Pinheiro
Fotografia: Carla Sellan.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Libido que Freud explica.

Ela, uma adolescente
com corpo de atriz
de filme norte-americano
que na época do cassete fazia dinheiro.

Ele, jovem dito leitor
de livros cabeça,
que preserva barba por estética
estética de outro comum.

Olhos se cruzam
se cruzam novamente
lábios se tocam
se tocam novamente

Os natais de diferença
os desencontros de crença
os tons da pele
e tudo que repele
não se mostram diante da carne.

O toque, o bote
o morder, o prazer
o gozo, o jogo
do refazer

o fim da meninice.

As justificativas do libido
passando por retóricas
inocentes e do vivido

A natureza animal
o Nietzsche sem moral
o desejo e o querer
o Foucault da vontade de poder
a conversa com as amigas
e o sim que autoriza
o ato já consumado


Organiza tudo
e deixa o quarto.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Série: Haikai kurto e grosso. (1 de 4)


Série: Haikai kurto e grosso
Colagem: Edu, Diego Gonzaga e Matheus Pinheiro
Fotografia: Carla Sellan.