
Está fazendo um mês que não sou questionado sobre não ter uma conta no Instagram. Tudo bem, esse dado é impreciso, pode ser mais ou menos, é pouco relevante. O certo é que tomei nota disto lendo um livro escrito na plataforma: Pedro Cardoso eu mesmo em busca de um diálogo contra o fascismo brasileiro, de, óbvio, Pedro Cardoso. O livro reúne uma seleção de textos que autor publicou em sua conta, entre setembro de 2016 e março de 2019 - e se comento, é porque recomendo.
Não
sei o que aconteceu, se meus amigos já desistiram de mim ou mesmo se não
conheci ninguém esse tempo. De quando não sei ao certo, mas até bem
recentemente, toda semana alguém me mandava fazer uma conta no Instagram.
Uma pessoa que acabara de conhecer e dizia: vamo se seguir, como é teu Insta?;
ou os amigos de sempre que questionavam: estás esperando o que para fazer teu
perfil? As abordagens eram diversas e divertidas, de um: como você não tem uma
conta, faz!; a os mais elaborados argumentos de sociabilidade a
distância.
Recordo
um teleológico. Segundo um amigo, se tivesse um perfil na plataforma desde o
junho de 2018, hoje seria um amigo da jornalista Aline Midlej. Segundo ele,
depois daquela conversa de pouco mais de dois minutos no São João de Arcoverde,
sertão pernambucano, eu a teria seguido e de, imediato, ela recordaria de mim e
me seguiria de volta - tem o lance do timing. De maneira mais futurista impossível,
meu amigo completa: e nesse teu objetivo de ir para São Paulo esse ano, era
capaz de tu marcar um café com ela. Eu não estou inventando. E se isso não me
levou ao Instagram ainda, menos poder tinha os comentários dos meus amigos
“machistas” que diziam com frequência: as meninas estão lá, vai paquerar no
story.
Não
sei se farei, categórico prefiro dizer que não terei uma conta agora, desejo
não bate. Poderia argumentar que tem me agradado o tempo que ganho por não
“perder” nesse espaço e que sigo tentando encontros pessoais, a cerveja, a
conversa, o cheiro. Fiz minha conta no Facebook em 2009, cheguei quando tudo
era mato e vi a construção de megalópoles. Hoje, restam escombros. Tenho medo
de calcular o tempo gasto nesses dez anos, ao mesmo tempo que não carrego
reflexões de arrependimento.
O
tempo que passo sem conta na rede social, uso também para acompanhar as
consequências do uso. Uma delas me mostra Pedro Cardoso que tentou
intelectualizar sua conta durante o processo eleitoral de 2018 e acabou por
bloquear pessoas que pensavam diferente - eu não seria bloqueado -, finalizando
por chamar o espaço de “rede antissocial” na apresentação do livro. Outra
reverberação do uso do Instagram canta Chico César no disco O Amor é um ato
Revolucionário, claro, essa é no campo dos desejos, dos sentimentos,
curiosidades (ciúmes?):
Eu tô ligado que você visualiza meu story
Quer saber da minha vida
Se eu to bem, se eu tenho alguém
Algum amor em vista
Quer saber se eu amo ainda
Vou seguir acompanhando de longe. A/ao
amiga/o que chegou ao final da leitura e refletiu que caso eu estivesse no
Instagram mais pessoas poderiam ler meus textos, já aviso: essa também já
ouvi.