domingo, 12 de novembro de 2017

Expectativa de vida


Ilustração: Ghita Galvão

Tinha um escorpião no meu quarto
Eu acabara de chegar da rua
Uso rua
Porque vinha de vários episódios
Numa mesma noite
Vi o adiamento de projetos
Tanto no pessoal
Quanto no profissional
Diria aquele apresentador
Pensei
Depois disso
Um escorpião no meu quarto
Peguei o sapato
Não sei qual é a expectativa de vida
De um escorpião
Enterrei no quintal
Acho que ele tinha o direito
Meu cachorro ficou querendo entender
O que se passava ali
Disse
Amanhã vai tomar banho
Ele ficou contente
Acho que não entendeu
O que eu vivi

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Fragmentos do real, catados entre as pedras




Ilustração: Guilherme Paolliello

Fazia dois meses que não nos víamos. Ela quem me procurou. Falou sobre voltarmos e eu disse que era melhor não, conversamos e transamos. Diziam que trocamos o namoro pela amizade colorida. O sexo estava massa, inclusive melhor do que nunca. Uma semana sem nos encontrarmos resolvi mandar mensagem: ei, fiz um jantar massa. Ela respondeu: estou indo para um restaurante.

Hoje eu vi minha mãe catando feijão. Quanto tempo eu não a via fazer isso? Comecei a recordar da infância. Não sou nostálgico, mas lembrei de quando criança ajudar a ‘separar as pedras do feijão’. Lembrei das brincadeiras de infância. Pensei que agora adulto não tenho tempo para miudezas. Toda semana tem feijão em casa, mas nunca mais vi minha mãe catar feijão.  Resolvi comentar: nunca mais vi a senhora catar feião. Ela respondeu: é, nunca mais fiz isso. 

Conheci uma menina, ou ela me conheceu. Não lembro mais. Depois de relutar a possibilidade de sair para um encontro, resolvi chama-la. Talvez um cinema. Para não errar, perguntei: que tipo de história tu gosta? Ela respondeu: para ler, ver ou viver?