quarta-feira, 14 de junho de 2017

Na praça



A cidade do Recife não está preparada para as chuvas – a bem da verdade, suspeita-se de que nunca estará, sai governo, entra governo e assistimos as mesmas catástrofes na TV. Mas há episódios que não vão para os jornais e gostaria aqui de relatar.

O histórico bairro da Torre, palco das invasões holandesas às dependências do engenho de açúcar dos Uchoas no século XVII, bem como da Companhia Fiação e Tecidos de Pernambuco – para os íntimos, a Fábrica da Torre –, agente importantíssimo no processo de industrialização do estado de Pernambuco, iniciado na segunda metade do Século XIX, é também palco do sagrado dominó da praça. A jogatina semirreligiosa começa junto com a noite. Às dezenove horas em ponto as pessoas se juntam e tem início a primeira partida, com a próxima dupla já formada, assistindo a iniciada competição. Mas quem leva a mesa, as cadeiras, o dominó?

Está aí uma difícil questão. É repentino. Em questão de segundos, o palco está armado. Embaixo da iluminação, utilizando um dos bancos fixos, outras três cadeiras emergem ao redor de uma mesa que parece que já se encontrava ali. O grande público vai chegando aos poucos e formando uma assembleia. Meu pai, por exemplo, era um desses que passava pela cerimônia. Morador de outra cidade, não poderia ser um religioso, ia quando podia. Minha avó, que Deus a tenha, morava muito próximo à praça. Assim, quando meu pai ia visitar a mãe, aproveitava e ia para uma partidinha, jogava até perder – é claro que ele demorava a levantar.

Foi nesse dominó da praça que vi pela primeira vez o seu Conrado. Lembro-me como se fosse ontem à noite:
- Deveria ter uns 12 para 13 anos, tinha acabado o futebol, também ali na praça – outro episódio dos poucos que guardo da infância, o “jogar bola” na praça, onde os bancos dos casais namorar eram usados como barras/traves – e estava esperando meu pai perder a partida ou terminar a rodada para irmos embora. Seu Conrado estava na plateia, esperando sua vez de sentar à mesa, e entre o banco que eu estava e o centro da praça onde acontece o vaivém das peças, um casal trocara os beijos apaixonados por uma discussão em tom elevado. Recordo daquele senhor se aproximar do casal e dizer de forma leve: nem oito nem oitenta, trinta e seis!

Na época, o que mais me impressionou foi a reação do casal para aqueles números: sem hesitar eles findaram a discórdia. Não compreendi nada do que aquele senhor proferiu, mas entendi que deveria aprender. Aos poucos passei a puxar assunto com o seu Conrado, sempre que o via na assembleia, antes de sentar para o sagrado jogo, eu me aproximava e conversava com ele algo genérico, chamando sua atenção. Hoje de tudo discutimos. Em toda sua vida, seu Conrado deve ter lido a metade dos livros que eu já li, mas eu não tenho um terço da sabedoria que ele possui.  É sempre um aprendizado parar na praça e prosear quinze minutinhos. Porém, quando chove no Recife, não tem dominó na praça.



Ilustração: Theus Pinoli

terça-feira, 6 de junho de 2017