Passam das vinte e uma e o celular permanece mudo, não conversa comigo, uma ligação, uma mensagem, uma demonstração sequer de carinho, nada. Passam das vinte e uma e ela não. Nada. A bicicleta alugada aparece como única solução, digo, companhia.
Saio de um dos únicos bairros com nome de senhora numa cidade d’água, onde o que não é várzea já foi afogados. Da dona Madalena passo pela Benfica, mas só passo, quase que como um internacional. Na paisagem que se segue um rabisco de Burle Marx, que quando eu era menino eu ia ver peixe-boi no aquário no centro da praça, mas hoje tem como moradores os esquecidos e sem nomes, que faz desse pedaço de verde um lugar de passantes. E para catalizar meu passamento, vejo passando uma beautiful teacher de mãos dadas com uma barba maior que a minha. Por que mesmo eu aparei minha barba?
Cruzando o que desejaria que fosse um dos poucos resquícios da monarquia e o que outrora pode ter tido uma boa vista, a solidão se estende, vejo-a também nos transeuntes. O que esta acontecendo contigo, Recife? Nem o set de filmagem da obra de Guel Arraes parece acolhedor. Cheio de gente, mesas, cadeiras, heinenkens e vazio. O reduto dos “artistas” da cidade que é tão central me pareceu um polo, o polo errado pr’eu estar. Foi aí que perdi a vontade da cerveja e lembrei de um lugar onde fico bem.
Estacionei a bicicleta entre o Paço Alfandega e a Livraria e fui olhar o Capibaribe. Talvez eu não devesse ter saído de casa, maré baixa e o lixo amostra. Mas me deixei ficar. Aquele cenário já foi palco de muitas viagens minhas e nelas me perdi novamente, mas desta vez em recordações apenas. Pib pib pib, pib pib pib. O celular me trazia de volta e me lembrava da hora de colocar o budesonida no nariz. Vinte e duas, hora de voltar. Pego a bicicleta e pedalo de volta.