I- Cenário
Sábado, praça do Carmo, Olinda, show, Jards Macalé.
Objetivos: distração (fuga de uma semana cruel); conversar
com amigos, tomar cerveja e Axé (Axé!); ah sim, paquerar também, claro.
II- Instante
Macalé inicia os “Soluços” (a música!). Uma menina
linda do meu lado diz: “presta atenção nessa música”. Fiquei atento.
Sintam (!) o drama escrito: “Quando você me encontrar / Não fale comigo, não olhe pra mim / Eu posso
chorar. / E quando eu choro eu tenho soluços / E os soluços estragam minha
garganta / E, além disso, eu uso lenços de papel / Eles se desfazem quando
molham / Meus olhos ficam vermelhos e irritados / Eu ainda não comprei meus
óculos escuros”.
III- Desorientação e reflexão
Embasbacado ouvindo a música. Vista totalmente
enxovalhada para a realidade. Matutava: “esse cidadão levou um pé na bunda
ontológico, ele estava apaixonado pra caralho!”. Mas o mais extraordinário naquele momento para mim: “como ele tinha coragem de jogar essas coisas assim? Todos estão ouvindo!”.
Cá com meus botões, tentei recordar
algo que escrevi que condizia com a minha realidade sentimental de fato e de
direito – eu me escondo. Quase que desiludido de encontrar, recordei-me de um
poema que escrevera ao findo de um carnaval. Guardava tanto de mim naquelas
palavras que tinha vergonha, passei uns três meses para mostrar para alguém. Guardava
por ele um sentimento de orgulho e embaraço.
IV Fim
Tu que teve coragem de ler até aqui, diz-me uma
coisa: tu terias coragem de falar/escrever/cantar tantas dores assim como Jards
Macalé?
Ah, nesse mesmo dia teve ‘show’ de Gilberto Gil, foi
ruim.